ELO Ligação e Organização, em parceria com a Pão para o Mundo, promoveu nesta terça-feira, 29 de setembro, o segundo encontro do ciclo sobre sustentabilidade e mobilização de recursos das organizações da sociedade civil, realizado on-line, com a participação de 36 pessoas. Com o tema “Comunicação estratégica na Sustentabilidade e Mobilização de Recursos das OSCs”, a atividade promoveu a troca de experiências e reflexões sobre como ampliar a visibilidade e a compreensão do trabalho das organizações, sem perder de vista os compromissos que orientam sua atuação.
As convidadas Marília Moreira, diretora institucional do Instituto AzMina, e Dora Lia Gomes, coordenadora de comunicação da Abong e da Rede Cardume, compartilharam experiências que ajudaram a discutir o lugar da comunicação no planejamento das organizações, na relação com diferentes públicos e na construção de apoio às causas que defendem.
Camila Veiga, coordenadora executiva da ELO, e Isabel Pato, consultora da organização, abriram a atividade e apresentaram a proposta do encontro, retomando questões identificadas na pesquisa com as organizações, como a dificuldade de comunicar sua atuação a possíveis financiadores e de envolver pessoas que ainda não conhecem suas iniciativas. A comunicação foi apresentada como uma importante aliada na mobilização de recursos, mas também como parte da própria estratégia de atuação das organizações. A conversa partiu dessas preocupações para discutir escolhas que fazem parte da rotina das equipes, desde a linguagem utilizada em uma publicação até a participação da comunicação na elaboração de um projeto e na definição de seu orçamento.
Marília Moreira apresentou a trajetória da revista e do Instituto AzMina, que nasceu em 2015 como uma revista viabilizada por financiamento coletivo e ampliou seu trabalho em comunicação e inovação feminista e antirracista. Ao falar sobre a Revista AzMina, o aplicativo PenhaS e as iniciativas de monitoramento legislativo, mostrou como a organização foi desenvolvendo diferentes formas de atuação em torno da defesa dos direitos das mulheres, buscando responder às necessidades dos públicos com os quais se relaciona.
A experiência do Instituto também trouxe uma reflexão sobre como contar essa trajetória e explicar as mudanças que se pretende produzir, inclusive no diálogo com quem pode financiar o trabalho. Marília abordou a construção coletiva de narrativas e a necessidade de adaptar a linguagem aos interlocutores, preservando os valores da organização, uma preocupação que ganha peso quando a captação de recursos envolve temas sujeitos a resistência, desinformação e ataques.
Nesse contexto, a segurança digital apareceu como parte das condições necessárias para comunicar e atuar publicamente. Marília relatou a realização de treinamentos periódicos e a adoção de orientações de proteção para a equipe e a instituição, lembrando que as decisões sobre presença nas redes e exposição das profissionais precisam considerar os riscos envolvidos. A colaboração entre organizações também foi discutida como uma forma de compartilhar estratégias e evitar que cada equipe enfrente essas situações sozinha.
Na apresentação de Dora Lia Gomes, a experiência da Abong ajudou a aprofundar uma questão recorrente entre as participantes: em que momento a comunicação entra nos projetos? Ao defender sua presença desde o planejamento, Dora chamou atenção para o conhecimento que a área pode oferecer à definição dos públicos, das atividades e dos resultados esperados, acompanhando o trabalho antes mesmo de haver algo a publicar.
A discussão encontrou eco na realidade de organizações em que as demandas chegam à comunicação apenas quando é preciso divulgar uma atividade, muitas vezes com prazos curtos e poucas informações. Mudar essa relação exige que as áreas conversem, compartilhem decisões e incluam a comunicação nos recursos previstos para os projetos, reconhecendo o tempo necessário para compreender uma experiência, produzir conteúdo e acompanhar sua repercussão.
Dora também apresentou as escolhas da Abong para se comunicar em diferentes plataformas, considerando as possibilidades de diálogo com jovens, organizações, público geral e financiadores. A relação com a imprensa foi abordada pelo seu papel na divulgação das iniciativas e na construção de uma compreensão mais ampla sobre a atuação das OSCs, especialmente diante de informações falsas e de visões que desqualificam seu trabalho.
A experiência da Rede Cardume trouxe à conversa a possibilidade de aproximar comunicadoras e comunicadores da sociedade civil para trocar conhecimentos, compartilhar pautas e desenvolver ações conjuntas. Para equipes pequenas, que frequentemente acumulam produção de conteúdo, cobertura de atividades, relacionamento com a imprensa e gestão de redes sociais, essas conexões podem ajudar a enfrentar dificuldades comuns e ampliar a circulação do que produzem.
As contribuições das participantes aprofundaram o debate sobre o papel da comunicação no enfrentamento de discursos que criminalizam as organizações da sociedade civil e as causas que defendem, destacando a importância de mostrar à população como esse trabalho atua na garantia de direitos. Também esteve em pauta a divulgação das atividades, dos resultados e da aplicação dos recursos como prática de transparência, permitindo que a sociedade acompanhe a atuação das organizações, compreenda suas escolhas e estabeleça relações de confiança.
O debate ressaltou ainda a importância de comunicar com clareza a origem dos recursos, sua destinação e os resultados alcançados, tornando essas informações acessíveis aos públicos com os quais as organizações se relacionam, especialmente no caso de organizações que recebem emendas parlamentares. Diante do interesse das participantes, Camila sinalizou a realização de uma roda de diálogo específica para aprofundar o tema.
Na segunda parte do encontro, os grupos, facilitados por Camila, Elza Montal, comunicadora da ELO, e Lorena Amorim, comunicadora do Sasop, discutiram desafios de comunicação interna e externa, adaptação de linguagem, monitoramento e uso de ferramentas digitais. A preocupação em alcançar pessoas que ainda não acompanham as pautas das organizações esteve presente nas trocas, junto à necessidade de fortalecer a comunicação popular e conhecer melhor os contextos em que as mensagens serão recebidas. Inspiradas pelas experiências da AzMina e da Abong, as discussões partiram de duas perguntas norteadoras:
- Como comunicar as diversas estratégias de áreas temáticas e públicos distintos numa perspectiva institucional?
- Diante dos desafios da comunicação em nossas organizações, de que forma o trabalho coletivo em rede pode fortalecer a comunicação de causa e a sustentabilidade das OSCs?
Ao longo do encontro, a relação entre comunicação e sustentabilidade também passou pelas condições de trabalho das próprias equipes. Esperar que a comunicação amplie o reconhecimento de uma organização e contribua para mobilizar recursos exige reservar tempo, planejamento e orçamento para essa atividade. Mais do que uma etapa final de divulgação, a comunicação precisa estar presente nas decisões que dão forma aos projetos, às estratégias de mobilização e à relação das organizações com seus diferentes públicos.
O encontro deixou uma questão central: comunicar não é apenas contar o que as OSCs fazem, mas disputar sentidos sobre seu trabalho, tornar visíveis as causas que defendem e criar condições para que a sociedade reconheça sua importância. Para isso, as organizações precisam de comunicação planejada, recursos e redes capazes de compartilhar conhecimentos e construir respostas coletivas.
As contribuições dos grupos serão sistematizadas e compartilhadas com as pessoas participantes, dando continuidade à troca iniciada no encontro. A partir das discussões, também ficou indicada a articulação entre redes de comunicação, incluindo a Rede Cardume, ampliando as possibilidades de colaboração entre profissionais e organizações da sociedade civil. A proposta é que o debate não termine aqui, mas se desdobre em novas conexões, trocas e estratégias para enfrentar, coletivamente, os desafios da comunicação e da sustentabilidade das OSCs.
Ainda teremos mais 2 encontros nesse ciclo de sustentabilidade e mobilização de recursos, fique ligada!








